O tempo veio a mim e perguntou-me: “Longevidade ou Alegria”?
- Alegria- respondi- e ele se afastou. Segui meu caminho e um garotinho segurando minha mão, logo à frente me perguntou:
- “Tio”, eu quero ser grande, me faça crescer…
No mesmo instante me abaixei para ficar na altura em que ele pudesse me olhar nos olhos e falei com voz calma e rosto sereno:
- Não se apresse! Muitos de nós, adultos, já esquecemos a criança que um dia fomos…
À minha frente, certa agitação prendia minha atenção. Resolvi me aproximar. Alguém falava em algo que dominaria as pessoas e o mundo. Vendo-me, disse:
- Ofereço-lhe todo conhecimento. Será respeitado por todos, até pelos mais importantes.
- Não há conhecimento algum, onde não há humildade - prontamente respondi.
Enquanto andava fui percebendo que um dia basta para saber até onde cabe em nós toda civilidade que fingimos ter. Olhei para o alto e um arco-íris riscava o céu… pensei: “Vou segui-lo, pois sei que meu tesouro estará à minha espera”!
Quando virei a esquina esbarrei numa pessoa. Ela, sorrindo me falou: “Está tudo bem!”
Foi então que vi que era alguém que eu havia levantado a voz e me exaltado, simplesmente pela minha arrogância e total capacidade de diminuir as pessoas. Apressei-me em pedir-lhe desculpas, mas, pela outra vez, e totalmente envergonhado, ela, ainda sorrindo: “Você estava num mau dia, mas vejo que aprendeu a lição. Você é que tem que se perdoar; já o fiz tão logo que aconteceu”.
Depois dessa atitude, dei-lhe um abraço e segui… Quantos não morrem, sem se dar a oportunidade de perdoar? De serem felizes e serem amados? Quantos não morrem esquecidos por todos e quantos que ninguém os quer por perto e vagam em lágrimas, tristeza e total desprezo?
Como eu ia dizendo, um dia basta para muita coisa e este estava longe de acabar..
Cruzando a praça, um casal de idosos me pede ajuda:
- Jovem.. .poderia nos ajudar a atravessar a rua? Se não lhe atrapalhar…é claro…
- Tudo bem- respondi- entre risos…Ao chegar do outro lado, o senhor me diz:
- Moço, espero não ter lhe atrasado para algum compromisso;
- Que nada, eu que sou grato- falando com o coração..
- Bebe?
- Às vezes- respondi.
- Fuma?
- Não!
- Sexo? Quis saber…
- Uhumm - Confessei…
- Reza?
- Agradeço! Respondi parecendo ser um interrogatório.
- Casado, solteiro, separado, viúvo?
- Solteiro!
- Um conselho - Se encontrar, não deixe escapar - Disse-me, enquanto olhava com carinho e orgulho para a companheira;
- Pode deixar! Fiz um aceno de cabeça respeitosamente…
- Ok meu jovem, agora é com você e obrigado mais uma vez.
Enquanto isso a companheira apressava-se, encabulada pelas perguntas do esposo..
Pensei comigo: ” Falam tanto em almas gêmeas… deveriam, sim, era falar no verdadeiro amor; não é preciso ir longe para descobri-lo.”
Levantei os olhos mais uma vez e lá estava, ainda, o arco-irís, falei em voz baixa: “Irei até o fim… tenha certeza!”
Uma mão pousou no meu ombro e um homem muito bem vestido me diz: “Basta pedir que eu lhe darei o que quiser”.
- Tenho tudo que me basta no coração, o que não é vivo dentro dele, jamais existirá fora - foi minha resposta.
- Dinheiro, carro, mulheres, status..pense bem – continuou tentando…
- Obrigado! Mas se você esperar um pouco mais, tem gente sedenta que daria tudo para voltar a isso, até mesmo perder o pouco que ainda lhe resta, o respeito!
Mais à frente a algazarra dos meninos chama a minha atenção. Estão descalços, suados e felizes, repartem o único refrigerante, comem pão e mortadela, enchem o ar de risos e olhares para as meninas que passam;
- A vida em movimento - pensei..
Sento de frente para o mar, tiro meus calçados e avanço sobre a areia e antes que eu alcance a água, o tempo me interpela novamente, e pergunta:
-Por que, você abriu mão de viver bem mais, pela alegria que é passageira, tão breve?
- É simples! As maiores mentiras saem de mentes ávidas, e esta não é diferente. Cada momento da minha vida, que tive de alegria, as pessoas com quem eu ri alto e despreocupado, e , com aquelas que sorriram com meu jeito, minhas palavras e principalmente com minha chegada, é o que fica. Pouco importa os anos, tanto faz o que tenho ou tive, um momento de alegria que se tenha, resume uma vida.
Nesse momento o tempo foi se afastando até desaparecer.
Eu, com os pés na água, olhando o sol desenhando estrelas nas ondas, enquanto meus olhos são cobertos, sem me deixar virar, a voz pergunta:
-Quem sou eu?
- O amor! – afirmei.
- Como pode saber?
- Quem mais pode encontrar o coração, sem nunca tê-lo visto uma única vez???